terça-feira, 27 de outubro de 2015

Os Homens que a História não Amou


(Uma leitura da Obra "O Homem que amava cachorros-Leonardo Padura)





Essa semana Trotski morreu. Protelei ao máximo, mas como acontecimento já ocorrido e de conhecimento de todos, não pude evitá-lo. Finalizei a leitura da obra de Leonardo Padura.  Narrativa ficcional cuja densidade histórica nos leva a refletir sobre as profundas interconexões entre literatura e história. 

Ao longo de semanas, apeguei-me aos personagens, às suas histórias de exílio, conflitos e perseguições.  No  caso de Trotski,  à sua luta tenaz para escapar à sanha stalinista. Mas Trotski também acreditou que em nome da utopia de uma sociedade sem classes de futuro glorioso, deveria se eliminar qualquer um que se interpusesse no caminho da revolução.  Assim, provou de forma perversa do próprio modelo que ajudou a erguer.  

Por semanas estive em sua companhia, aliás, não só a dele, mas também na de seu algoz, Ramon Mercader, cuja mão, foi responsável em dar cabo de sua vida. Pelas páginas da obra de Leonardo Padura, Trotski e Mercader, “homens que amavam cachorros” são apresentados a nós, senão como homens comuns, como sujeitos repartidos por angústias, certezas provisórias, decepções, sofrimentos e melancolia. 

Padura humaniza o mito revolucionário, complexifica os motivos de seu assassinato e o que é mais duro, nos faz sentir compaixão também por seu algoz. “O Homem que Amava Cachorros” é a história de uma utopia não realizada, ou para o autor, de uma utopia pervertida que fez a opção por se impor pelo medo, morte e violência, pensamento apresentado em várias passagens do livro o que nos leva a refletir ainda sobre os efeitos das grandes decisões e projetos nas vidas dos indivíduos. Tempos entrecortados por fanatismos, cujos sacrifícios de um presente longínquo prometiam um futuro que nunca chegou.  

Há ainda um terceiro personagem marcante na obra: Iván, cubano que acaba se tornado o elo entre as várias janelas narrativas da obra. Iván é o caminho que nos estende para o presente ao questionar o sentido de todo o processo para os “náufragos” do pós-1989.  O próprio autor, ao final do livro, nos revela que começou a pensar a obra naquele desconcertante ano com a queda do muro de Berlin, assim, a todo momento, desejos e necessidades individuais são confortados pelas exigências de um projeto que estava além de suas próprias existências. Desta forma, o romance não é apenas a história de homens, é também a biografia de um projeto, cujo fracasso ecoou nas vidas de milhões de pessoas. 

Para muitos, o preço de seguir a causa foi abrir mão da afetividade, dos laços familiares e, no caso de Mercader da própria identidade. A leitura é dura, angustiante, mas fundamental para compreendermos vários aspectos de nosso próprio tempo, no dizer do jornal L´Humanité, uma história construída “sobre as ruínas de um sonho”. Em comum, além do peso esmagador de um projeto de sociedade não realizado, os três personagens principais carregam um pequeno refúgio para a alma: o amor aos cachorros, talvez, único afeto possível para homens há muito tempo engolidos pela história.



"A armadilha mais insidiosa, dizia para consigo, tinha sido transforma a política em paixão peremptória, como ele fizera, e permitir que as exigências desta o tivessem cegado a ponto de levarem-no a colocar-se acima dos valores e condições mais humanas. Naquela altura da vida, quando restava pouco da utopia pela qual tinha lutado, reconhecia-se como perdedor do presente que ainda sonha e se consola com a reparação que poderia chegar no futuro"

(trecho do livro, página 457)

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