terça-feira, 27 de outubro de 2015

Os Homens que a História não Amou


(Uma leitura da Obra "O Homem que amava cachorros-Leonardo Padura)





Essa semana Trotski morreu. Protelei ao máximo, mas como acontecimento já ocorrido e de conhecimento de todos, não pude evitá-lo. Finalizei a leitura da obra de Leonardo Padura.  Narrativa ficcional cuja densidade histórica nos leva a refletir sobre as profundas interconexões entre literatura e história. 

Ao longo de semanas, apeguei-me aos personagens, às suas histórias de exílio, conflitos e perseguições.  No  caso de Trotski,  à sua luta tenaz para escapar à sanha stalinista. Mas Trotski também acreditou que em nome da utopia de uma sociedade sem classes de futuro glorioso, deveria se eliminar qualquer um que se interpusesse no caminho da revolução.  Assim, provou de forma perversa do próprio modelo que ajudou a erguer.  

Por semanas estive em sua companhia, aliás, não só a dele, mas também na de seu algoz, Ramon Mercader, cuja mão, foi responsável em dar cabo de sua vida. Pelas páginas da obra de Leonardo Padura, Trotski e Mercader, “homens que amavam cachorros” são apresentados a nós, senão como homens comuns, como sujeitos repartidos por angústias, certezas provisórias, decepções, sofrimentos e melancolia. 

Padura humaniza o mito revolucionário, complexifica os motivos de seu assassinato e o que é mais duro, nos faz sentir compaixão também por seu algoz. “O Homem que Amava Cachorros” é a história de uma utopia não realizada, ou para o autor, de uma utopia pervertida que fez a opção por se impor pelo medo, morte e violência, pensamento apresentado em várias passagens do livro o que nos leva a refletir ainda sobre os efeitos das grandes decisões e projetos nas vidas dos indivíduos. Tempos entrecortados por fanatismos, cujos sacrifícios de um presente longínquo prometiam um futuro que nunca chegou.  

Há ainda um terceiro personagem marcante na obra: Iván, cubano que acaba se tornado o elo entre as várias janelas narrativas da obra. Iván é o caminho que nos estende para o presente ao questionar o sentido de todo o processo para os “náufragos” do pós-1989.  O próprio autor, ao final do livro, nos revela que começou a pensar a obra naquele desconcertante ano com a queda do muro de Berlin, assim, a todo momento, desejos e necessidades individuais são confortados pelas exigências de um projeto que estava além de suas próprias existências. Desta forma, o romance não é apenas a história de homens, é também a biografia de um projeto, cujo fracasso ecoou nas vidas de milhões de pessoas. 

Para muitos, o preço de seguir a causa foi abrir mão da afetividade, dos laços familiares e, no caso de Mercader da própria identidade. A leitura é dura, angustiante, mas fundamental para compreendermos vários aspectos de nosso próprio tempo, no dizer do jornal L´Humanité, uma história construída “sobre as ruínas de um sonho”. Em comum, além do peso esmagador de um projeto de sociedade não realizado, os três personagens principais carregam um pequeno refúgio para a alma: o amor aos cachorros, talvez, único afeto possível para homens há muito tempo engolidos pela história.



"A armadilha mais insidiosa, dizia para consigo, tinha sido transforma a política em paixão peremptória, como ele fizera, e permitir que as exigências desta o tivessem cegado a ponto de levarem-no a colocar-se acima dos valores e condições mais humanas. Naquela altura da vida, quando restava pouco da utopia pela qual tinha lutado, reconhecia-se como perdedor do presente que ainda sonha e se consola com a reparação que poderia chegar no futuro"

(trecho do livro, página 457)

domingo, 4 de março de 2012

A História sem tempo ou um tempo sem História?



Na Anpuh de 2008 realizada em Fortaleza apresentei um texto cujo título era uma pergunta: “A Humanidade ainda precisa dos historiadores?” Lembro que no momento da minha apresentação alguns arqueares de sobrancelha lançavam sobre mim certa desconfiança, afinal, minha pergunta talvez tenha parecido retórica ou tola, pois qual de nós colocaria em dúvida sua importância.
Meu questionamento pretendia investir sobre dois aspectos relevantes para nossa profissão: a constituição do campo da história, rotinas de trabalho e atuação política e social do historiador quando diversas áreas e profissionais circulam e produzem obras históricas vendidas aos montes em bancas de revistas e livrarias. Em segundo lugar, procurva interrogar sobre a produção historiográfica das últimas décadas e capacidade de reflexão e compreensão das mudanças sociais, políticas culturais que enfrentamos nesse princípio do XXI.
Resumindo, questionava se nossa escrita estava sendo capaz de dar conta dos processos de transformação desencadeados nos últimos anos e que parecem apontar para uma urgente necessidade de pensarmos outras maneiras do estudo do passado e, por outro lado, já que falamos tanto em aceleração, quebra entre as dimensões temporais,  se nós, historiadores estávamos conseguindo apresentar repostas importantes para a compreensão desse momento.
Minha primeira conclusão em relação a isso (muito mais uma provocação) é que ainda não estamos conseguindo produzir uma historiografia que dê conta dos problemas deste tempo. Não falo de estudos sobre o presente, mas sobre a própria escrita da história no presente, elementos bastante distintos.
Os motivos são vários, porem, o principal deles talvez seja o fato que o historiador se afastou das questões da atualidade. O efeito disso parece ter sido político higienizador, como se ao apontar os lugares de interferência social na produção historiográfica, conseguíssemos lançar mão de ferramentas para tentar neutralizá-la, colocá-las em lugar tranquilo para que o conhecimento histórico pudesse aparecer límpido.Não é a toa que proliferaram as obras sobre as minúcias de outros tempos.

Se o século XIX foi o século de profissionalização da história, o XX foi o de sua afirmação, todavia, embora tenhamos avançados em aspectos relevantes em consideração de novos objetos, fontes e problemas, continuamos a escrever história sob os mesmos paradigmas teóricos metodológicos do XIX.

Mas Como pensar o passado nesse presente de transformações tão rápidas e profundas?  Como experimentar a dispersão do nosso próprio tempo, sendo cidadãos e historiadores que tentam dar conta de compreender os tempos de outros? Como lidar com a assustadora explosão documental de nossos dias? O jornal antes depositado a meia luz, nas hemerotecas de nossas antigas bibliotecas, agora está disponível, ininterruptamente, para quem o quiser consultar na Web. Como estudar uma notícia que nunca deixar o circuito da comunicação?
Se antes o principal problema era o da escassez, agora nos deparamos com o excesso.  Se foi dado ao historiador do século XIX a tutela da história, hoje, ela é um produto partido e repartido por vários profissionais, o passado se tornou mercadoria, e a mídia diz fazer história em cada jornal de sua programação.
Ao me deparar com esses lugares fronteiriços, interrogo-me sobre o papel da história para nossa sociedade, melhor dizendo, a força inegável que assumiu os usos sobre o passado em um momento no qual a memória e o esquecimento são postos como referências fundamentais.

É preciso considerarmos que pensar a história hoje, significa levar em conta a influência que os meios de comunicação exercem na fundação de sentidos sobre o presente e, conseqüentemente, sobre o passado e o futuro. Assim sendo, é preciso avaliar que subsistem, em suas formulações, diversos fluxos de sentido que obedecem a interesses, visões de mundo, posturas políticas que colocam em evidência tanto dimensões superficiais como subterrâneas dessa própria experiência.
Isso significa, mais do que nunca, pensar a escrita da história em sua dimensão política, uma vez que devemos considerar que boa parte dos governos contemporâneos, sobretudo na América latina, ascendeu ao poder amparada pelo discurso da reparação histórica, em nome dela o mundo está mudando, paredes estão sendo derrubadas, memórias e lembranças estão sendo tecidas, reviradas, destruídas e construídas.
Dessa forma, devemos nos interrogar  sobre nossa função social, sobre que tipo de ação desempenhamos efetivamente nesse mundo em travessias. Sentimento que talvez nunca tenha sido tão intenso.  
Se o mundo em que vivemos é um mundo de intensas mudaças, talvez nós, historiadores, estejamos sendo chamados a atravessar também nossos territórios e fronteiras, sendo assim, desafiados a compreender as artimanhas de uma história que se desenha muito além de nossas abrangências tradicionais. 
Ao destacar tais questões não significa que devamos abrir mão dos problemas de nosso campo, mas sim que precisamos aprender a lidar com as novas questões desse tempo, e se nossa velha roupa não nos veste mais, somos chamados à construção de uma nova tessitura para nosso campo. 


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

PINHEIRINHO: Nosso Distrito 9 é logo ali



  


Distrito 9 é um filme de ficção interessante. Sob vários aspectos nos faz pensar sobre algumas questões importantes do nosso tempo. Ao primeiro olhar, seu argumento pode até não ser um dos mais originais: uma nave de alienígenas caí na terra. Bem, até aí muitos filmes norte-americanos já se deleitaram com o tema. Todavia diferentemente deles, é na África que os estrangeiros se deparam com seu trágico destino. Digo trágico, porque doentes, famintos e sem ter como voltarem para casa é numa favela de Johanesburgo que encontram seu novo lugar de morada. Vivendo em condições miseráveis em casebres de madeira, sem saneamento ou assistência médica; segregados na região mais pobre dentro da pobreza, sobrevivem de trocas, pequenos delitos, ora sendo perseguidos pelos traficantes de armas locais, ora pelos agentes da segurança que tinham como principal função mantê-los sob controle no Distrito 9.

O Distrito 9 de Johanesburgo era um gueto desprezado e odiado por todos ao seu redor. Xenofobia e intolerância são os motes que conduzem as relações entre os habitantes cidade e seus inconvenientes visitantes. Um dia as autoridades locais associadas a uma grande empresa privada de armamentos e segurança resolvem colocar em ação um plano transferência dos 1.800.000 moradores do Distrito 9 para outro local. Por trás da ação, o interesse era financeiro e bélico: controlar e subjugar os indesejáveis residentes para se apropriar de sua tecnologia.


Na última semana conhecemos nosso Distrito 9 e nossos estrangeiros nem eram assim, de tão longe. A ação realizada em Pinheirinho é daquelas histórias que imaginamos como roteiro de filme. O grande especulador, acusado de todo tipo de corrupção e falcatrua, que sempre conseguiu se valer da face mais lenta e burocrática da justiça quando se tratou de apurar e julgar as acusações que pesam sobre ele, aciona essa mesma justiça, agora sim, rápida, implacável e incrivelmente eficiente para despejar, destruir casas, bens, memórias e vidas milhares de pessoas em poucas horas, afinal, agiu a justiça para garantir o sagrado direito de propriedade do Sr. Naji Robert Nahas, um terreno avaliado em 400 milhões de reais.


A quebra da bolsa do Rio de Janeiro em 1989, denúncias de lavagem de dinheiro, desvio de verbas públicas, corrupção, etc., que o levaram para cadeia em 2008 através da operação Satiagraha, são algumas das acusações que pesam sobre o especulador, bem mas isso aí a justiça ainda tem muito tempo para apurar, julgar, resolver...


A verdade é que a decisão a favor de Nahas foi a senha para que os habitantes de Pinheirinho fossem expulsos e retirados de onde estavam. Ninguém os queria ali. Nem o prefeito, nem os demais moradores de São José dos Campos, nem o governo do Estado. Representativo disso é que anos antes a câmara de vereadores da cidade havia aprovado uma resolução para impedir que seus moradores tivessem acesso a qualquer assistência de saúde, educação ou saneamento básico, que só não foi implementada por ser inconstitucional. Assim como os alienígenas do Distrito 9, ser morador de Pinheirinho era pagar o preço da segregação, da descriminação e do preconceito.


Pinheirinho escancara ainda outros problemas latentes em nossa sociedade: o primeiro deles, ainda é o alcance do poder econômico no acionamento da justiça. O claro paradoxo entre as ações que tramitam contra Naji Nahas e a eficiência com que foi cumprida a ação judicial que o especulador ganhou sobre os moradores do bairro demonstra o quanto nossa lei trabalha eficazmente quando se trata julgar e condenar quem é pobre no Brasil.

Em segundo, a segregação de Pinheirinho dentro do espaço de São José dos Campos denuncia a tensão existente entre os moradores da cidade e o bairro. Mais uma vez é a condição de pobreza que marginaliza e identifica seus habitantes. Sob os argumentos das autoridades, o bairro era o espaço do crime, da marginalidade, embora admitissem que “gente honesta” habitasse ali, Pinheirinhos é apresentado pela grande mídia como uma outra “cracolândia”, portanto, destruí-lo foi a opção mais fácil que encontraram para se “livrar do problema”. No depoimento de uma das moradoras expulsa, ao tentar alugar imóveis e ser identificada pertencente ao bairro, viram-lhe as costas.

Pinheirinho tornou-se para seus moradores o lugar de construção de uma identidade repartida, marcada pelas desigualdades que ainda se mantém em nosso país; pela indiferença com a qual tratamos a maior parte de nossos problemas sociais e pelo estado de letargia que nos encontramos.

Ao contrário da grande repercussão dada a eventos, no mínimo, risíveis que nada nos dizem, a cobertura do despejo dos moradores do bairro foi tratada pela grande mídia como matéria de segunda página, afinal, pouco importa para onde irão os habitantes do Distrito 9, desde que fiquem longe, invisíveis e silenciosos. Assim, a vida segue seu curso e pouca gente vai saber o que foi feito deles, espalhadas por ai.... mas amanhã tem BBB, alguém voltando do Canadá e o carnaval, ah! o carnaval...até descobrimos nosso próximo Distrito 9.

sábado, 14 de maio de 2011

O direito à eutanásia virtual: a síndrome do eterno presente e o desafio do esquecimento na era Google


Uma matéria de hoje do jornal El País, colocou uma questão importante para pensarmos a interferência da internet, em particular dos buscadores, nos processo de lembrança e esquecimento na contemporaneidade. Intitulado "Un nuevo desafío: el derecho al olvido" a matéria trata do caso da ginasta Marta Bobo, hoje com 45, professora da Facultad de Ciencias del Deporte de la Universidad de A Coruña, ex-atleta olímpica, que em 1984 foi notícia exatamente no El País por, possivelmente, sofrer de anorexia, fato que estaria atrapalhando sua carreira naquele momento. Até aí nada demais, afinal, como uma matéria curta vinculada 26 anos atrás poderia influenciar ou prejudicar uma acadêmica reconhecida em seu meio?

É provável que essa notícia jamais viesse a público, a não ser pela extrema curiosidade de alguém ou pelo acaso de alguma pesquisa sobre práticas esportivas, olimpíadas, etc..., realizada em qualquer das hemoreteca espanholas ou, quem sabe, de outro país que armazene o periódico em seus arquivos.

Era provável que isso ocorresse a não ser por um detalhe: a hemeroteca na qual a notícia em questão está armazenada, não se situa mais em um lugar físico, ou pelo menos, não somente nele.

Fundando em 1976, o jornal El País, a exemplo de outros jornais, caso da Folha de São Paulo no Brasil, disponibiliza todo o seu conteúdo na rede. Através dela, e de buscadores como o Google, o maior de todos, a matéria sobre Marta Bobo, de 1984 pode ser facilmente localizada, bastando para isso que seu nome seja colocado como tema de busca. A ex-atleta argumenta o inconveniente de hoje, na sua atual condição de acadêmica que discute e trabalha exatamente a temática esportiva, ter continuamente seu nome associado a um assunto tão delicado para o meio que é a questão da anorexia. "Una vez leí una referencia a mi supuesta anorexia en Vogue. Pensé que se iría olvidando, pero ahora resulta que la noticia tiene de nuevo repercusión".

O exemplo nos coloca um problema muito próprio do nosso tempo: a atualização permanente da notícia, seu eterno vagar no presente através da rede, o que simplesmente impede seu esquecimento. Talvez até possamos pensar em um novo desafio para o próprio campo da comunicação e a reboque, para a história também, ou seja: o passado que não passa. A novidade, sempre renovada, por mais estranho que essa assertiva possa parecer. Exposta para cada leitor que tem acesso aquela notícia, mesmo antiga, torna-se para ele, que nunca a havia lido, nova.

O jornal se defende afirmando que não pode simplesmente apagar de seus arquivos as notícias dadas, dessa forma, estaria infringindo o direito fundamental da informação, seu argumento então é de que o problema não está na notícia vinculada em1984, mas sim, no fato de agora, ela está acessível a qualquer pessoa em 2011 através da rede.

Deparamos-nos assim com uma questão inquietante: estamos condenados a permanecer na rede mesmo depois de não estarmos mais aqui? Quais os efeitos desse presente contínuo para as gerações futuras? Como ensinar sobre o passado no tempo de uma hipertrofia do presente?

Nas comunidades de relacionamentos virtuais crescem os perfis de pessoas já falecidas que continuam recebendo diariamente mensagens de seus parentes e amigos, como se a própria morte agora pudesse, metaforicamente ser abolida da experiência humana. Vive-se como se o morrer fosse uma passagem deste mundo, para outro; mas não aquele sugerido pelas inúmeras perspectivas religiosas, espera-nos agora o mundo dos bits e bytes.

O que Marta reclama nada mais é, do que um dos mais elementares diretos para qualquer indivíduo: o direito ao esquecimento, aquilo que nos possibilita seguir adiante. É o esquecer que nos ajuda a selecionar e compreender o que é importante ser lembrado e que aprofunda nossa existência numa dimensão temporal da duração, tornando assim, o passado, não uma eterna presença, mas uma experiência reflexiva do viver. Se tudo está permanentemente disponível num eterno presente, corremos o risco de caminharmos para uma espécie neurose coletiva que vê na internet seu desejo de eternidade ilusoriamente realizado.

Crato, 15 de maio de 2011

Sônia Meneses

Matéria do El País:

http://www.elpais.com/articulo/opinion/nuevo/desafio/derecho/olvido/elpepiopi/20110515elpepiopi_4/Tes


quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Os aposentados da história e as armadilhas do passado reparado.

Dos muitos absurdos que costumamos escutar diariamente em nome da “história” a divulgação de que algumas pessoas têm direito a aposentadoria por serem descendentes de “heróis” nacionais realmente causa espanto para não dizer constrangimento. Nas últimas décadas parecemos ter entrando em uma quase histeria de reparação do passado. Como se fosse possível o presente expiar todas as culpas das escolhas efetuadas por nossas sociedades ao longo da história.

Em nome disso, um conjunto de políticas públicas têm se organizado tentando “restituir” aos mortos o que lhes foi usurpado, ao menos assim, seus descendentes teriam um pouco de reconhecimento histórico.

Antes que os politicamente corretos avancem sobre mim e os mais radicais digam que sou contra as cotas, as minorias e aos direitos humanos, esclareço que me coloco efetivamente contra a uma idéia que o passado que pode ser reparado, e assim, se tenham resolvidos nossos problemas com a história. Ventilaria por demais nossas consciências!



Muito conveniente pagarmos às gerações atuais pelos seus mortos do passado. Quanto vale em reais os milhões de indígenas dizimados ao longo dos séculos? Ou o trabalho dos povos africanos em mais trezentos anos de escravidão? O passado não volta, simplesmente pelo fato de que ele passou.

Isso evidentemente, não nos impede de fazer uma reflexão crítica sobre ele para que compreendamos melhor quem somos e o que queremos do futuro.

Falo do não esquecimento que é bastante diferente da idéia de reparação.

O não esquecer diz respeito à construção de nossa identidade enquanto membros de uma comunidade afetiva, política e social. Diz respeito ao relembrar, comemorar que significa lembrar juntos.

Remete ao exercício crítico de pensar sobre o nosso passado contribuindo para construir, no presente, horizontes de expectativas diferentes daqueles que nos vinculam às experiências traumáticas, autoritárias e excludentes exercitadas no passado.

Se hoje o Brasil tivesse que reparar sua história, considerando que isso fosse de alguma forma possível, certamente ele deixaria de existir, porque cada uma de nossas características, sejam àquelas que ressaltamos ou as que desprezamos, foi construída na relação conflituosa, diversificada e, muitas vezes violenta, desse amálgama que nos une e identifica.

Penso que se devemos ensinar às gerações atuais a importância do passado é porque isso pode possibilitar, principalmente, compreendermos quem somos no presente. Pois esse é realmente o único tempo que nos pertence e se conseguirmos compreendê-lo de forma crítica e consciente é possível que no futuro não precisemos de políticas ou de aposentadorias feitas em nome do que não pode mais se mudado.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

11 de setembro: o novo acontecimento histórico dez anos depois. (parte 1)



O mês de setembro desse ano será marcado por eventos que certamente lembrarão os 10 anos da queda o Word Trade Center. Embora o historiador não seja muito afeito a prognósticos, arrisco-me a dizer que assistiremos a uma profusão de celebrações que não deixarão esquecer a significação simbólica desse acontecimento para a história contemporânea. Ainda hoje suas imagens povoam com muita nitidez o universo de nossas recordações, não somente pela proximidade de tempo que temos com ele, mas sobretudo, pela profusão espetacular de sua divulgação, reprodução e reflexão que não pararam de ocorrer ao longo dessa década. A queda do imponente complexo empresarial inaugurou de forma dramática a passagem do século XX para o século XXI. Como se, naquele momento, efetivamente pudéssemos ter sentido, como em nenhum outro momento, a passagem do tempo.

O grande diferencial desse evento, para outros que nos acostumamos a tipificar como histórico, talvez seja a radicalidade de sua experiência em termos de divulgação e envolvimento humano para além de todos os espaços geográficos. Embora seu espaço de efetivação se situe no “Ground Zero”, coração da ilha de Manhattan em Nova York seu espaço de subjetivação ampliou-se espetacularmente em cada residência, escola, loja, ou praça em várias partes do mundo nos quais foi possível acompanhar sua transmissão ao vivo. Incontáveis olhos presenciaram a metamorfose dos grandes prédios em ruínas, foram suas testemunhas.


Acontecimento catastrófico e dramático no qual as imagens valeram e ainda valem pela força de mobilização que provocaram ao longo desses 10 anos. Espetáculo que misturou ficção e realidade numa trama costurada pelos meios de comunicação.
Com a queda do World Trade Center nos deparamos como um novo acontecimento histórico, bastante diferente daquele vislumbrado até meados do século XX. Isso, porque mudou não apenas seu status como ocorrência exemplar, singular e fundadora, transformou-se, sobretudo, as formas de sua divulgação, e consequentemente, de sua apropriação. Não se pode negar também que se modificaram as formas de percepção das coletividades, assim como, suas maneiras de lembrar, esquecer e selecionar seu patrimônio histórico e memorial.

“É justamente na possibilidade de associar a transmissão em tempo real e o caráter informativo atribuído aos noticiários à dimensão do consumo que as mídias carregam no mundo atual que os acontecimentos conquistam sua hiperealidade de divertimento dramático.”(1)

Diferentemente de outros momentos, em que o contato com tais ocorrências era limitado, como chamou atenção Duby em sua bela narrativa sobre o Domingo de Bouvines, em virtude de “uma reserva de materiais cujo número é finito e que doravante já não é possível aumentar”(2) , o aco
ntecimento contemporâneo demonstra exatamente o dificuldade seletiva sobre os materiais a serem utilizados em sua formulação, além disso, acrescenta-se outro elemento: a possibilidade de sua reprodução em imagens, sons e textos para uma audiência quase inesgotável.

O acontecimento agora não apenas está disponível para ser lembrando, recontado, há também
a possibilidade dele ser “revisto” através das infinitas formas de registro disponibilizadas em nosso tempo. Acontecimento que é também encenado no momento logo posterior à construção de suas imagens.

Para muitos, a queda das duas torres realizou uma projeção mental assustadoramente familiar, resultado da própria indústria cinematográfica norte-americana.
Para nós, pesquisadores do tempo presente, o que este evento vem demonstrar é que certamente a partir dele teremos que construir novos caminhos de compreensão e reflexão para as ocorrências humana no espaço e no tempo. Pode-se perceber que estamos também diante de um novo passado que agora nos apresenta novas formas de representação e feitura.

________________________
(1) Mauad, Ana Maria. Dimensões do presente: palavras e imagens de um acontecimento, os atentados ao World Trade Center e ao Pentágono, em 11 de setembro de 2001 in Porto Jr., Gilson. História do tempo presente, São Paulo. Edusc. 2007.
(2). DUBY, Georges. O Domingo de Bouvines – 27 de julho de 1214. São Paulo, Paz e Terra. 1993, pág. 15.


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Nunca descansar, Nunca desligar... ou a síndrome de Funes


Recentemente a Globo News fez 14 anos e lançou uma bem produzida campanha de marketing, cujo objetivo foi promover o próprio canal e sua atuação na produção da notícia. Sua a mensagem principal: “nunca descansar, nunca desligar”. Ações atribuídas ao próprio canal, como qualidades no meio em que atuam. Eu acrescentaria uma pergunta. Como agüentar?

Ao assistir a propaganda, imediatamente me senti como Funes, o memorioso de Jorge Luis Borges. Como se naquele momento, também eu tivesse caído do cavalo e batido com a cabeça. Tal como Funes, senti-me castigada a nunca mais poder me distrair do mundo. Condenada a ver, olhar, ouvir, saber, ver, olhar, ouvir... Errante em um ciclo ininterrupto de eventos, notícias, informação, enfim. Como se cada um de nós fôssemos “o solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, instantâneo e quase intoleravelmente preciso”. Mundo no qual parecemos ter encontrado a fórmula mais sofisticada e complexa de aprisionamento e dependência: a produção ilimitada e irrefletida de informação.

Excesso que tem tornado quase tudo, espetacularmente desimportante, ou fugazmente importante, para ser otimista. O que poderia ser finalmente o ponto máximo de nosso desenvolvimento intelectual tem se tornado, na verdade, um grande pesadelo de Funes.

Sabemos como produzir, mas não sabemos como preservar o que realizamos hoje para as gerações futuras. Temos a capacidade inimaginável de ampliar o conhecimento, mas efetivamente não estamos nos preparando para lidar com essa produção no futuro.

O rápido desenvolvimento da tecnologia não tem deixado espaço para a reflexão consciente sobre nossas descobertas no presente, e como tudo é rapidamente atualizado, o futuro torna-se passado antes mesmo de se firmar como experiência duradoura em nosso presente. Nessa corrida, o esquecimento tem avançado mais velozmente do que nossa capacidade de recordação. Isso ocorre em parte porque progressivamente estamos delegando aos meios, a responsabilidade de perpetuar um patrimônio memorial, cognitivo e cultural que cabia aos grupos humanos administrar em suas relações comunitárias, afetivas e identitárias.

A quimera de que nossos arquivos digitais darão conta de preservar nossos artefatos de recordação, vai-nos lançando rapidamente em um mergulho em Lete, o mitológico rio grego do esquecimento. Conforme chamou atenção Remo Bodei (2004; 15), “o desejo de usufruir imediatamente como dádivas únicas do amor, da amizade, do prazer ou do bem estar” nos colocou em um estado de alerta ininterrupto em espaços nos quais a velocidade, que impõe um presente contínuo, importa mais que a duração. Situação que explica, em parte, o sucesso e a proliferação gigantesca indústria de manuais de auto-ajuda, sites de relacionamentos, conselheiros sentimentais, agências de casamento e de amizades, tão próprios deste tempo.

Todavia, esse é ainda um tempo nosso, e como tal, ainda é possível acordar do sonho de Funes, para isso é preciso lembrar que a memória e o esquecimento nos povoam e são necessários principalmente porque a partir deles significamos nossas experiências subjetivas, sociais e culturais, portanto, é preciso não nos acostumarmos com o excesso que banaliza e cega.